Quando Ana encontrou José, pensou que encontrara também a pata do coelho, o trevo, a paz merecida, o sossego tão sonhado e um bocado de outras coisas boas que as pessoas tentam e tentam encontrar a vida toda. No entanto, José era só um homem. Magro, bem magro. Branco, alto, usava roupas amarrotadas, óculos emendado. João não tinha como entregar a lua a Ana, embora o Raimundo da padaria houvesse oferecido. Olha Ana. Não tenho muito, não te dou a lua, mas cozinho muito bem. Ana que achava a lua meio vazia e esburacada ficava contente, mas não deixava de acreditar que José era mesmo a pata do coelho, o trevo, a paz merecida, o sossego tão sonhado e um bocado de outras coisas. José só sabia que. José gostava dali. Meio homem bruto, só sabia que precisava de uma boa companhia, que as conversas com Ana eram agradáveis, mas sabia também que não podia ser mesmo a pata do coelho, o trevo, a paz merecida, o sossego tão sonhado e um bocado de outras coisas. José, como todos os outros homens do mundo inteiro, e mais algumas mulheres começou a ficar, como dizem “sufocado”. Ana não costumava o acordar com o travesseiro no rosto, nem o afogava na banheira, mas ele se sentia assim. Acho que o que ele e todos os homens do mundo e algumas mulheres querem dizer é com as “costas doendo”. Afinal haja preparo físico para que um magrelo carregue só, a pata do coelho, o trevo, a paz merecida, o sossego tão sonhado e um bocado de outras coisas boas que as pessoas tentam e tentam encontrar a vida toda. E foi sufocando, pesando, incomodando, estranhando até que o José disse “chega”. Ana não entendeu e chorou. Ligou pra Marcinha, tomou um porre e conheceu João. Um tanto mais forte que José. Ana que pensava que nada mais pudesse fazer sentido, pensou que encontrara em João a pata do coelho, o trevo, a paz merecida, o sossego tão sonhado e um bocado de outras coisas boas que as pessoas tentam e tentam encontrar a vida toda. Ana só descobriu que o José, o João, o Maurício, o Ricardo, a Rosa, a Angélica, o Raimundo da padaria e todos os outros homens e todas as outras mulheres do mundo inteiro, não poderiam dar nem a pata de coelho, nem o trevo, nem a paz e o sossego que queria, quando olhou pra si e viu que todos os amuletos e desejos e sensações e vontades e rédeas estavam nas próprias mãos. E conheceu Gabriel. E Gabriel pensou que Ana pudesse ser... Porque todos nós pensamos também.
domingo, 3 de outubro de 2010
Porque eu também me chamo Ana.
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2 comentários:
Muito bom!
Adoro suas idéias, seu estilo de escrever. *.*
Me surpreende a cada dia, sou louca pelos seus textos. Parabéns!!
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