Lembra, pequena? Lembra quando de manhãzinha, a primeira expressão, ainda com os olhos cerrados, era um sorriso e o primeiro gesto sempre era um toque nas costas, que se arrastava até a nuca, arrepiava os braços e te fazia abrir o bocão – bom dia.
Lembra? Eu lembro todos os dias. Todos os dias cinzas em que a primeira expressão é o franzir da testa e o primeiro gesto contra o despertador. Contra a vida que me espera e corre la fora. Contra a vida que me espera sem você.
E não. Não é nada agradável não ter você. E fico pensando se além do toque e do sorriso eu deveria ter dito algo mais pra te fazer ficar. Dito com o coração todo aberto que eu te amava e amava e seria capaz de amar mais. E cada vez mais. Que eu seria capaz de carregar nossos sonhos todos na sacola, que eu te buscaria onde fosse, que ali onde você costumava repousar a cabeça e lamentar o stress do trabalho era o único lugar que te deixaria segura. Que só bastava você ficar. Que só bastava você. Que nos bastávamos.
Mas passou. É como todas as pessoas se referem ao tempo que passamos juntas, compartilhando os novos dias, que eram sempre a esperança de. Passado. Já era. Agora é viver a vida. O amor próprio. Seu futuro profissional, suas metas. Passou.
E eu já me conformei.
Já me conformei com o silencio abismal entre minha fala e a sua. Me acostumei com o telefone que não toca. Com a caixa de entrada sempre vazia. E ando me acostumando com a idéia de que você pode estar em qualquer lugar, com qualquer pessoa e que tanto desvario não adianta nada.Você vai seguir. Eu também. E dizem que linhas paralelas a outra nunca se encontram.
E somos.
Mas pra mim, serviu de consolo saber que somos mais que linhas paralelas em busca de um recomeço, com o coração fodido e o teto abaixo. Somos milhares de arranjos de flores arrancadas dos canteiros dessa Brasília imensa. Somos algumas exposições, dezenas de filmes, milhares de pratos bem elaborados, sem luz de velas e tanto amor. Somos meses de espera, declarações desconcertantes e risadas ensurdecedoras.
E você lembra pequena? Porque eu nunca esqueci.
As primeiras expressões, gestos, você abrindo o bocão e – adeus.
5 comentários:
Fantástico texto. Juro que no segundo parágrafo fiquei arrepiada!
Com o perdão da palavra - seus textos são fodas *-*
Dizem que no infinito as linhas paralelas se encontram, vai saber...
Tudo que você escreve é muito bonito, escrito com a alma, é sempre uma história de entrega, vivida de forma intensa. Acho que já te disse anteriormente que teu coração está a mostra pra quem quiser ver. Enfim, ficou repetitivo comentar teus textos, eles sempre me surpreendem positivamente e daí me resta dizer o de sempre, que você escreve demais, que sempre suspiro aos teus textos e que dá pra sentir cada parágrafo escrito por ti!
Ainda bem que não rolou nenhuma lágrima nos dez parágrafos, deixe essa parte com o leitor :)
Dez parágrafos e muitas lágrimas :S
Queria ter podido escrever esse texto.
Adorei seu blog, e esse texto então...incrível!
Beijobeijo! =*
Tati.
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