quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Uma notícia. Um drama. Milhões de atos encenados por uma cabeça frouxa, desvalida. O intervalo de quase um mês findara e a tempestade batia à porta para inundar tudo de novo. Vou agir com calma, acender um cigarro, fiz. Vou abandonar o barco, pra que? Noites como essas, me fazem pensar na transitoriedade das promessas que a gente por impulso, faz. Pra sempre é tão piegas e vamos com calma virou blasé. Nessa maré ruim, meu desejo era não morrer na praia e salvar algumas coisas que, com sorte, sobreviveriam fora d’ água. Beijo roubado no asfalto, por exemplo. De toda forma, era um tanto inútil. Haviam cenas, vertigens. As necessidades loucas de quem havia perdido o tesão em assistir a uma sessão de cinema sozinha ou beber e rir das próprias piadas. O mesmo alguém que temia que o sereno de ser só, fosse capaz de afogar almas arranhadas por tudo que fica apenas na superfície. E não está preparada para o naufrágio. Faz drama. Rouba a cena e esquece de nadar contra tudo que, cedo ou tarde, será surpreendido por um outro dia.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Tudo que não deu tempo de dizer.

Sinto (sem nenhum pesar, juro) que todo esse seu discurso de menino-rebelde-não-me-procure-por-favor não é o bastante para que eu me esqueça daquilo que podia ter dito se, aspas. Eu vou sentir saudades, sim. Da praça, das mangas e das mazelas contadas. Do frio na barriga e do abismo emocional, sustentados por duas horas e pouco. Do alívio aos cinco quilômetros restantes. Jantares a luz de um novo dia. Bebidas a beira da cama. Travesseiros juntos, pernas coladas. Água quente em dia frio. Um banho a dois. Vou sentir falta da sua risada, muda. Dos seus olhos, fartos. Das suas sardas e sorrisos e jeito, trejeitos. Das suas rugas na testa. Cabelos brancos e nó no peito as seis e trinta de uma segunda-feira difícil. De todos os clichês adolescentes e de todas as balelas ditas aos quarenta e cinco do primeiro, intervalo, segundo tempo. E, acima de tudo, sentirei saudade do que éramos deitados na cama, olhando para o ventilador de teto, em cinco ou seis anos. Éramos nós, lembra? Hoje, de marinheiro.

domingo, 27 de novembro de 2011

"…Se não era amor, era da mesma família. Pois sobrou o que sobra dos corações abandonados. A carência. A saudade. A mágoa. Um quase desespero, uma espécie de avião em queda que a gente sabe que vai se estabilizar, só não se sabe se vai ser antes ou depois de se chocar contra o solo. Eu bati a 200 km por hora e estou voltando a pé pra casa, avariada. Eu sei,não precisa me dizer outra vez. Era uma diversão, uma paixonite, um jogo entre adultos. Talvez este seja o ponto. Talvez eu não seja adulta o suficiente para brincar tão longe do meu patio, do meu quarto, das minhas bonecas. Onde é que eu estava com a cabeça, de acreditar em contos de fada, de achar que a gente muda o que sente e que bastaria apertar um botão que as luzes apagariam e eu voltaria a minha vida satisfatória, sem sequelas, sem registro de ocorrência?

Eu não amei aquele cara. Eu tenho certeza que não. Eu amei a mim mesma naquela verdade inventada. Não era amor,era uma sorte. Não era amor, era uma travessura. Não era amor, eram dois travesseiros. Não era amor, eram dois celulares desligados. Não era amor, era de tarde. Não era amor, era inverno. Não era amor, era sem medo. Não era amor, era melhor...”

MM.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Lembro. Ela, morena desajeitada, dirigindo o velho Passat com uma lágrima salgada, escorrendo a face em direção ao peito. Enquanto dava ré e, em poucos segundos dobrava a esquina da Avenida São Jorge, eu permanecia ali estática em frente ao número cinco. Ela não vai aterrissar no Galeão daqui a três ou cinco dias. Nem cozinhar com autoridade e me beijar a testa depois das vinte e duas. Não tinha mais jeito. Tranquei o portão mas, quando virei as costas, tirei um cigarro do bolso esquerdo da camisa, senti. Ela deixou uma ferida aberta.

domingo, 31 de julho de 2011

Zero a zero


Ei, relaxa. Você não precisa provar do que é capaz. Não precisa chegar a esses extremos, olhando-se no espelho e repetindo que o mundo não lhe cabe. Esses extremos são desnecessários, meu bem. Não se assuste com o que vou dizer, mas você tem que entender que em determinados casos uma queda de braço não resolve. Aliás, se servir de consolo, nem uma discussão baseada em experiências-amorosas-bem-ou-mal-sucedidas. É uma coisa de química. Espírito. Vai virando afeto, que exige um tanto de respeito e quando você vê, está ali, mergulhando cada vez mais fundo num poço de ternura, onde todas as sensações são quase incontroláveis e você e sua graduação e todas as línguas que fala e toda sua experiência além das aulas de dança se anulam. Aliás, não se anulam. Você mesmo fará questão de jogá-las privada adentro que é sempre o que se deve fazer. O que eu estou tentando lhe dizer desde a primeira linha é que a gente nunca aprende a amar. Não existe uma fórmula e esses três, quatro, cinco anos em que você viveu aquele amor vagabundo, namoro perfeito ou casamento falido não vão interferir em como agir agora. Arrisco dizer que você sequer aprendeu a controlar o excesso de suor que molha a palma das suas mãos toda vez que ela chega perto. Vai, diz que ouvir McCartney cantando All my loving numa noite chuvosa não te desarma mais. Ou então que teu teto anda pleno e você prefere andar em calçadas negras e seguras. Você entende agora? Eu sei que nos fins de semana, com as portas fechadas, livros abertos, músicas animadas no player parecemos protegidos contra o mal que aflige todos os mocinhos de novela, o amor. Mas não, não estamos meu caro. E sei o quanto essas rugas nos fazem parecer aptos o suficiente para não errar e deixar mais um grande amor escapar, mas não, não estamos. Repito: é coisa de química. Espírito. Almas nulas que ampliam paisagens somando-se ao nulo do outro. E no zero a zero, se entendem.